TDAH: muito além da distração
O Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que interfere no funcionamento ou no desenvolvimento do indivíduo. Embora o termo “déficit de atenção” seja amplamente utilizado no senso comum, essa denominação pode contribuir para uma compreensão reduzida de um quadro clínico que envolve diferentes aspectos do funcionamento cognitivo, comportamental e emocional.
De acordo com o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR), o TDAH pode se manifestar predominantemente por sintomas de desatenção, por sintomas de hiperatividade e impulsividade ou pela combinação dos dois grupos. Esses sintomas precisam ser persistentes, ocorrer em diferentes contextos e provocar prejuízos significativos na vida acadêmica, profissional, social ou familiar (American Psychiatric Association, 2022).
TDAH: muito além da distração
A dificuldade de atenção é apenas uma das manifestações possíveis do TDAH. Muitas pessoas apresentam dificuldades relacionadas à manutenção do foco, organização, planejamento, gerenciamento do tempo, controle dos impulsos, memória de trabalho e regulação do comportamento.
Um aspecto importante é compreender que a pessoa com TDAH não necessariamente apresenta incapacidade de prestar atenção. Em determinadas situações, especialmente quando uma atividade é altamente estimulante, nova ou envolve uma recompensa imediata, pode ocorrer intensa concentração. O problema está, muitas vezes, na dificuldade de regular voluntariamente a atenção de acordo com as demandas da situação.
Essa característica ajuda a explicar por que uma pessoa pode permanecer concentrada durante horas em uma atividade de grande interesse e, ao mesmo tempo, apresentar dificuldades importantes para iniciar ou concluir uma tarefa considerada pouco estimulante.
Funções executivas e TDAH
As funções executivas são um conjunto de processos cognitivos envolvidos na autorregulação e na realização de comportamentos orientados a objetivos. Entre elas estão o controle inibitório, a memória de trabalho, a flexibilidade cognitiva, o planejamento e o monitoramento do próprio comportamento.
Embora o TDAH não possa ser reduzido a um simples “déficit de funções executivas”, dificuldades nesses processos são frequentemente observadas em indivíduos com o transtorno e podem contribuir para prejuízos no cotidiano (Barkley, 2015).
- Isso pode aparecer, por exemplo, quando uma pessoa:
- sabe o que precisa fazer, mas tem dificuldade para começar;
- começa várias tarefas e deixa algumas incompletas;
- perde objetos com frequência;
- esquece compromissos ou prazos;
- subestima ou superestima o tempo necessário para uma atividade;
- interrompe outras pessoas durante uma conversa;
- toma decisões impulsivas;
- apresenta dificuldade para organizar materiais e rotinas;
- tem dificuldade para manter estratégias de planejamento ao longo do tempo.
Esses comportamentos não devem ser interpretados automaticamente como preguiça, falta de interesse, irresponsabilidade ou falta de inteligência.
TDAH também pode envolver hiperatividade e impulsividade
A hiperatividade nem sempre aparece como uma criança correndo ou constantemente se movimentando. Dependendo da idade e das características individuais, pode manifestar-se como inquietação, dificuldade para permanecer sentado, necessidade constante de atividade ou sensação interna de agitação.
Na vida adulta, por exemplo, a hiperatividade pode ser percebida mais como uma dificuldade para relaxar, necessidade de estar constantemente ocupado ou inquietação subjetiva.
A impulsividade, por sua vez, pode aparecer na dificuldade de esperar, interromper conversas, responder antes que a pergunta seja concluída, tomar decisões precipitadas ou agir antes de avaliar adequadamente as consequências.
O TDAH pode afetar diferentes áreas da vida. Crianças e adolescentes podem apresentar dificuldades acadêmicas, conflitos familiares, dificuldades de relacionamento e problemas de organização da rotina. Em adultos, podem surgir prejuízos relacionados ao trabalho, administração financeira, relacionamentos, gerenciamento doméstico e cumprimento de responsabilidades.
Por isso, avaliar apenas as notas escolares ou a capacidade intelectual não é suficiente para compreender o funcionamento de uma pessoa com suspeita de TDAH.
Uma pessoa pode apresentar inteligência preservada ou até desempenho intelectual elevado e, ainda assim, vivenciar dificuldades importantes relacionadas à atenção, organização, autorregulação e funcionamento executivo.
O impacto pode ultrapassar o desempenho escolar
O TDAH pode afetar diferentes áreas da vida. Crianças e adolescentes podem apresentar dificuldades acadêmicas, conflitos familiares, dificuldades de relacionamento e problemas de organização da rotina. Em adultos, podem surgir prejuízos relacionados ao trabalho, administração financeira, relacionamentos, gerenciamento doméstico e cumprimento de responsabilidades.
Por isso, avaliar apenas as notas escolares ou a capacidade intelectual não é suficiente para compreender o funcionamento de uma pessoa com suspeita de TDAH.
Uma pessoa pode apresentar inteligência preservada ou até desempenho intelectual elevado e, ainda assim, vivenciar dificuldades importantes relacionadas à atenção, organização, autorregulação e funcionamento executivo.
Diagnóstico não é sinônimo de aplicação de um único teste
Outro ponto fundamental é que o diagnóstico do TDAH é clínico e deve considerar uma investigação abrangente. Não existe um único teste psicológico, neuropsicológico ou exame isolado capaz de, sozinho, confirmar ou excluir o transtorno.
A avaliação deve considerar a história do desenvolvimento, os sintomas atuais, o funcionamento em diferentes contextos e os prejuízos associados. Também é necessário investigar outras condições que podem produzir manifestações semelhantes, como transtornos de ansiedade, depressão, alterações do sono, dificuldades específicas de aprendizagem e outros transtornos do neurodesenvolvimento.
A avaliação neuropsicológica pode contribuir para compreender o perfil cognitivo e identificar forças e dificuldades específicas, auxiliando no processo diagnóstico e no planejamento das intervenções. Entretanto, seus resultados devem ser interpretados em conjunto com os dados clínicos e contextuais, e não de maneira isolada.
TDAH não significa falta de inteligência
Um dos equívocos mais comuns é associar TDAH a baixa inteligência. Essa associação não é adequada.
O TDAH e a capacidade intelectual são constructos diferentes. Uma pessoa pode apresentar elevado potencial intelectual e, simultaneamente, dificuldades importantes de atenção, controle inibitório, planejamento ou organização.
Da mesma forma, dificuldades escolares não significam necessariamente TDAH. O baixo rendimento pode estar relacionado a diversos fatores, e a investigação deve buscar compreender quais processos estão realmente envolvidos.
Compreender antes de rotular
Talvez uma das principais contribuições de uma avaliação adequada seja substituir julgamentos por compreensão.
Em vez de interpretar determinado comportamento simplesmente como “falta de esforço”, é importante perguntar:
O que está dificultando essa tarefa?
É uma dificuldade de atenção sustentada? De memória de trabalho? De planejamento? De controle inibitório? De organização? De regulação emocional? De motivação? Existe outro fator interferindo nesse funcionamento?
Essa mudança de perspectiva é essencial tanto para o diagnóstico quanto para a intervenção.
O TDAH é uma condição complexa e heterogênea. Compreender suas manifestações exige olhar para além da distração e considerar o indivíduo em sua totalidade: sua história, seu contexto, suas habilidades, suas dificuldades e os impactos que esses fatores produzem em sua vida.
Avaliar não é apenas identificar dificuldades. É compreender o funcionamento para direcionar melhor o cuidado.
Referências bibliográficas
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5. ed., text revision. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing, 2022.
BARKLEY, R. A. Attention-Deficit Hyperactivity Disorder: A Handbook for Diagnosis and Treatment. 4. ed. New York: Guilford Press, 2015.
FARAONE, S. V. et al. The World Federation of ADHD International Consensus Statement: 208 evidence-based conclusions about the disorder. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 128, p. 789–818, 2021. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2021.01.022.
KOOIJ, J. J. S. et al. Updated European Consensus Statement on diagnosis and treatment of adult ADHD. European Psychiatry, v. 56, p. 14–34, 2019. DOI: 10.1016/j.eurpsy.2018.11.001.
WILLcUTT, E. G. The prevalence of DSM-IV attention-deficit/hyperactivity disorder: a meta-analytic review. Neurotherapeutics, v. 9, n. 3, p. 490–499, 2012. DOI: 10.1007/s13311-012-0135-8.
